Cuidado Com os Olhos

 

   

     Se um cisco no olho já é inconveniente quando não se está fazendo nada, em uma pescaria é muito pior.

            Em cima de um barco de alumínio, sem conseguir enxergar nem pensar direito, a vítima daquela sujeirinha que resolveu se instalar onde não devia vai acabar andando atrapalhadamente de um lado para o outro, balançando o barco e espantando os peixes. E se houvesse já algum peixe na linha, iria embora com facilidade, rindo da situação do pescador.

            Não é sempre, porém, que os corpos estranhos nos olhos geram situações apenas constrangedoras. Muitas vezes pedras minúsculas, pequenos cacos de vidro, areia e farpas de metal, além de uma grande variedade de insetos, acabam caindo nos olhos. Eles podem se tornar um problema grave quando não forem removidos corretamente e causarem lesões nos tecidos os olhos. Assim, só se deve tentar retirar estes corpos com água bem limpa, ou, se possível, com soro fisiológico. È um produto fundamental em uma caixa de primeiros socorros. Irrigue os olhos com este líquido, de forma abundante e repetida, até que o corpo saia sozinho. Nunca tente ficar esfregando o olho com a mão ou retirar um instrumento com um pano. É bem possível que nem consiga se retirar o cisco do olho. Algumas vezes, mesmo que se tenha retirado um, ainda há outro que continua incomodando, sem ser possível encontrá-lo. Neste caso, a melhor coisa a fazer é tampar o olho com um curativo de gaze ou pano limpo. Procure, então, ajuda especializada. Só com auxílio médico é que se vai poder, com segurança, se ver livre esta chata situação.

            Há casos mais graves, porém são aqueles em que o corpo estranho chega no olho com tanta força que acaba penetrando nele. Aí, o mais importante é não tentar removê-lo, por isso faria com que a lesão provocada pelo objeto se tornasse ainda maior, causando danos irreversíveis. A única coisa prudente a fazer é novamente tampar com um curativo, mas com o cuidado de não apertá-lo contra o olho, agravando a lesão. Outra vez, só o médico é que vai poder remover o objeto que penetrou o olho. Até achar um, o curativo vai impedir que o mal se torne mais grave.

            Se ocorre um machucado próximo à região dos olhos, não se deve, nunca, se automedicar com analgésicos e antibióticos tópicos [de uso local]. Só use estes medicamentos orientação do especialista. Quando a região do olho perde a sensibilidade pelo efeito destes medicamentos, não é possível notar a entrada de um corpo estranho nos olhos nem o machucado que este estiver provocando. Em casos de necessidade, use analgésicos por via oral.

            Mas não são só acidentes físicos que ocorrem com os olhos. Em dias de sol, não há nada mais comum do que se encher de protetor solar antes da pescaria. A medida em que o dia e a pescaria esquentam, o pescador começa a suar, e todo produto que estava na testa escorre para os olhos, deixando-os bastante ardidos e avermelhados. Isto também ocorre com outros produtos químicos, como inseticidas e repelentes. O procedimento a ser tomado é lançar mão da água ou do soro para ir lavando os olhos, de forma contínua e abundante. Além de diluir o agente nocivo, isto irá removê-lo. Outra vez, estes acidentes podem ser simples ou não, causando desde pequenas irritações até a cegueira, dependendo da quantidade e do tipo de produto químico que causou o problema. Assim, sempre se deve apelar para a ajuda médica se os sintomas não desaparecerem. Mesmo que seja um grande inconveniente procurar um hospital, é muito melhor do que perder a visão em virtude da falta de cuidados.

            Muito mais importante do que saber cuidar destes acidentes e saber evitá-los. Quando se está puxando um peixe com muita força e o anzol se desprende de sua boca, ele pode vir a toda velocidade junto a face do pescador. Assim, sempre que estiver pescando deve-se usar óculos, não importa se escuros, de grau ou de segurança. Quando o barco estiver em movimento, também se deve usar óculos, principalmente no final da tarde, quando há muito mosquitos no caminho.

            Bonés e chapéus de abas largas previnem eventuais acidentes com anzóis durante o arremesso. Principalmente quando há mais de um pescador no mesmo barco. Além disso, com chapéus não é necessário usar protetor solar na testa, que, como vimos, irrita bastante os olhos. Também é bom tomar o cuidado de não usar repelentes de insetos próximo aos olhos.

 

 

 

Carlos H. Patiño Baptista

Cirurgião Geral em São Paulo

Revista Pesca & Cia.

Edição nº 17

Agosto/95