PARTO À PANTANEIRA

 

Por: Antonio Lopes da Silva

A partir do momento que se pesca, todos nós temos boas histórias para contar. Esta, que hoje torno pública, aconteceu em uma pescaria em Porto Murtinho e resolvi chamá-la de ”parto à pantaneira”.

O ano, se não me engano, foi 77 ou 78. Havíamos marcado para nossas férias uma pescaria no Pantanal, mais precisamente na Fazenda Quebracho, de propriedade do amigo Ibraim Cortada, na região de Porto Murtinho.

Na época, fizemos o trajeto de caminhonete, partindo de São Paulo via Castelo Branco, passando por Presidente Epitácio, Rio Brilhante, Jardim, para após 400 quilômetros de estrada de terra, atingir Murtinho.

Rio Paraguai dentro da caixa, ainda um pouco alto para o mês de setembro, mas com muito peixe, principalmente dourados. Nós ficávamos em uma sede da fazenda de nome Flores, pois ficava em frente à Baía das Flores no rio Paraguai, distante rio abaixo, mais ou menos 15 quilômetros da cidade de Murtinho.

O administrador da fazenda chamava-se Pedro, ou como todos os chamavam: Pedrinho. Era um brasileiro de fronteira, típico morador do Pantanal, que tanto falava português como guarani fluentemente. Valente e destemido, foi uma das primeira pessoas a que assisti caçar onças, fossem elas pardas ou pintadas, acompanhado de um só cachorro de nome Camba e usando como arma um revólver calibre 38.

Segundo se falava na região,não havia onça ou homem que intimidasse o Pedrinho.

Após mais ou menos uma semana de pescaria, estava eu voltando de uma saída ao “Corixo Santa Maria”, lugar bom de pacu e jurupoca, quando ao chegar à sede da fazenda, percebi um corre-corre meio estranho para o lugar.

Desci do barco, descarreguei os peixes e logo o Pedrinho estava me ajudando na lida diária daquela “vida dura”de pescador. Puxei o assunto e fiquei sabendo que o alvoroço era por causa de uma empregada da fazenda que estava com dores de parto, ou se preferirem, como ele mesmo disse, estava para parir”.

Como eu havia saído bem cedo, não percebi nada, mas segundo o Pedrinho, já havia horas que o tal parto estava para ocorrer. No entanto, era só começar a sentir as dores do parto, que a “bugre”(assim a chamavam) levantava da cama e começava a andar e falar: “num dianta, dói muito e não quero parir não”. E quando as dores passavam, ela voltava a sentar em seu canto e ficava quieta e amuada até que as dores voltassem.

Preocupado, me propus a levar a empregada até Murtinho, onde ela poderia dar à luz no hospital da cidade. Mas fui desaconselhado pelo Pedrinho, que me disse que ela não iria não . Restou-me então ficar a tarde inteira assistindo de longe ao tal parto, que não acontecia. De vez em quando saía um corre-corre, que eu já sabia que era por causa das dores do parto. Como a tudo nesta vida a gente se acostuma, tarde da noite, com sono, fui dormir.

Quando acordei no dia seguinte, minha primeira preocupação foi saber o que havia acontecido com a moça. Dei de cara com o Pedrinho, todo sorridente, tomando o “quebra torto”(café da manhã). E aí eu soube o que tinha acontecido, em meio a um pedido de desculpas por parte do Pedrinho, que como eu estava dormindo, pegou um litro de whisky sem minha autorização. A explicação veio rápida: “pois é, seu Antonio, eu já tinha ouvido falar de que com um pouco de vinho doce, a mulher relaxa e consegue parir sossegada. Como não tinha vinho, eu dei o whisky para ela. De gole em gole, a bugre tomou a garrafa toda e ficou parada, quieta. De repente, vieram as dores e ela levantou e disse à minha mulher: “agora eu vou parir”. E ele rematou: “e pariu mesmo”.

Tomando meu café, fiquei a pensar e, internamente, comecei a rir, pois veio à minha cabeça a frase de que com um litro inteiro de whisky, qualquer um iria parir mesmo. Já havia horas que o tal parto estava para ocorrer. Mas era só começar a sentir as dores, que a “bugre”levantava da cama e dizia:”não quero parir, não”.